segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pelé Eterno

Com direção e produção de Aníbal Massaini e roteiro de José Roberto Torero, o filme "Pelé Eterno" tem o objetivo de relembrar quem foi o maior jogador de todos os tempos, e para os jovens que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo dentro das quatro linhas, mostrar que todos os elogios recebidos sempre são poucos quando se trata dele.
O filme não mostra os 1284 gols, mas vai desenrolando através de uma narrativa cronológica, em que o Pelé fala sobre suas conquistas e os jogos mais importantes de sua carreira, ilustrados pelos principais gols de cada momento. Além disso, são exibidos dribles de rara técnica, com ambos os pés, e lances famosos que não resultaram em gol, como um chute do meio-campo na Copa do Mundo de 1970. "Pelé Eterno" também exibe que o jogador recebeu muitas propostas milionárias para a época, porém, nunca teve o desejo de atuar na Europa. Em 1974, foi a única vez que se apresentou fora do país, atuando por um clube, e foram os Estados Unidos os privilegiados, mais precisamente o Cosmos, time no qual faz parte do seu currículo. Depoimentos de ex-jogadores e familiares também estão presentes, contando como começou e como foi presenciar tão de perto essa figura ilustre.
O filme resgata o que o Pelé representou para o Brasil, e sem ele talvez as gerações mais jovens não teriam ideia. Sua importância para sociedade era tão grande que Pelé conseguiu influenciar a política na época. Suas afirmações apoiavam os militares, o que gerou o momento histórico: marcou a consolidação de um regime e de uma entidade que rege o futebol no país até hoje.Os investidores e os cineastas, tinham certeza de garantia de sucesso, pois é uma das figuras mais marcantes do mundo.
É mister mencionar que a produção de Aníbal Massaini, não só é uma uma grande homenagem ao maior atacante da história, mas também ao futebol e aos admiradores do espetáculo. A impressão dos espectadores, após assistirem o filme, é de que as cenas que se passaram nunca mais iram se repetir. Dizem que cenas absurdas, exageradas, só acontecem em cinema, pois são falsas, mas não no filme do Pelé, no qual tudo é verídico.
O elenco conta com: Pelé, Zito, Pepe, Formiga, Lima, Dorval, Edu, Coutinho, Didi, Zizinho, Clodoaldo, Rivelino, Gordon Banks, Júlio Mazzei, Gordon Banks, Henry Kissinger, Bellini, Zagallo, Tostão,Gérson, Carlos Alberto Torres, Fúlvio Stefanini (narração),Gilmar, Garrincha, Jairzinho e Xuxa Meneghel.
Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido – e admirado – pelo mundo como "Pelé", nasceu a 23 de outubro de 1940, na pequena cidade de Três Corações, no Estado de Minas Gerais, Brasil. Ele foi batizado na igreja municipal, Igreja da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Seu pai, João Ramos do Nascimento, ou Dondinho, como era conhecido no meio futebolístico, também foi um jogador profissional. Ele era conhecido como um dos melhores cabeceadores de seu tempo. Jogou como centroavante pelo Fluminense até que uma lesão o afastou do futebol profissional. Sua mãe, Maria Celeste, dedicava a Pelé e ao resto da família muita atenção e amor. Ainda criança, Pelé e sua família se mudaram para Bauru, no interior do Estado de São Paulo, onde ele aprendeu a dominar a arte do futebol. Certa vez, ele próprio confessou: "tenho três corações", referindo-se à sua cidade natal (Três Corações), a Bauru e a Santos.
O primeiro trabalho de Pelé foi como engraxate. No entanto, ele nunca deixou de sonhar em jogar futebol.
A carreira futebolística de Pelé começou cedo. Após jogar em algumas equipes amadoras, como o Baquinho e o Sete de Setembro, aos onze anos, enquanto jogava em um time de pelada chamado Ameriquinha, ele foi descoberto por um antigo jogador da seleção brasileira de futebol chamado Waldemar de Brito. Waldemar constatou a habilidade de Pelé e o convidou a integrar o time que estava montando (Clube Atlético Bauru?). Aos quinze anos, em 1956, Waldemar o levou à cidade de São Paulo para fazer um teste em um time profissional: o Santos Futebol Clube. Naquele dia, Waldemar disse aos diretores do clube: "Este garoto ainda será o maior jogador de futebol do mundo."
O primeiro show de Pelé aconteceu a 7 de setembro de 1956, quando substituiu o centroavante Del Vecchio. Ele entrou em campo para marcar o sexto dos sete gols santistas na vitória por 7 x 1. Ele marcou aos 36 minutos do primeiro tempo, numa jogada armada por Raimundinho e Tite. Pelé recebeu um passe dentro da área, e, embora estivesse cercado por zagueiros, chutou a gol, mandando a bola por baixo do corpo do goleiro Zaluar. Este se tornou famoso como o primeiro goleiro a sofrer um gol do grande Pelé. Dali, a viagem até o topo foi rápida. Em seu primeiro jogo não-amistoso pelo Santos, ele marcou quatro gols. Na temporada seguinte, já era regularmente escalado como titular e foi o artilheiro do Campeonato Paulista, com 32 gols.
Pouco tempo após a primeira temporada de Pelé pelo Santos, Sylvio Pirilo, técnico da seleção brasileira, o convocou. Quando Pelé tinha dezesseis anos, a 7 de julho de 1957, jogou pela primeira vez pela seleção brasileira, contra a Argentina, e acabou marcando o gol brasileiro na derrota por 2 x 1. Então veio a Copa do Mundo de 1958, quando o mundo conheceu a Pérola Negra. Sua velocidade atordoante e seus petardos fizeram cair os queixos de muitos. Tudo o que ele tinha a fazer era entrar em campo para a torcida explodir em alegres batucadas e cantos ressoantes. O apelido "O Rei" lhe foi dado pela imprensa francesa em 1961, após ele jogar umas poucas partidas pelo Santos na Europa
Pelé disputou quatro Copas do Mundo: Suécia 1958, Chile 1962, Inglaterra 1966 e México 1970. Ele marcou doze gols em quatorze partidas em mundiais.A primeira partida que Pelé jogou neste mundial foi a terceira do Brasil, contra a União Soviética. Ele foi escalado mediante requisição de dirigentes, que pediram a Vicente Feola, após a vitória sobre a Áustria por 3 x 0 e o empate frente à Inglaterra em 0 x 0, que colocasse Pelé e Garrincha em campo. Naquela partida contra a URSS, Pelé não marcou, mas o Brasil venceu por 2 x 0, com dois gols de Vavá. No jogo seguinte, contra o País de Gales, Pelé marcou o único gol. Na semi-final contra a França, Pelé marcou três, enquanto Vavá e Didi fizeram um gol cada. Na final contra a Suécia, Pelé marcou dois (ver a gravação do gol), Vavá mais dois e Zagalo mais um, o que valeu a vitória sobre os suecos por 5 x 2.
Logo no primeiro jogo do Brasil, contra o México, Pelé marcou um gol e o Brasil venceu. Infelizmente, embora esta devesse ter sido a Copa de Pelé, o mundial terminou cedo para o grande astro. Após dez minutos de jogo contra a Tchecoslováquia, Pelé sofreu uma distensão muscular e deu adeus ao torneio. Amarildo o substituiu, e a Copa, então, tornou-se a Copa de Mané Garrincha.
Tudo parece haver dado errado para o Brasil nesta Copa. De alguma maneira, 43 jogadores foram convocados, e quando o time viajou para a Europa, dois dos melhores jogadores, o goleiro Valdir e o atacante Servílio, foram cortados. Na primeira partida, o Brasil venceu a Bulgária por um placar de 2 x 0, com um gol de Pelé e outro de Garrincha. O time perdeu para a Hungria por 3 x 1, e, no jogo seguinte, Pelé foi criminosamente caçado pelos portugueses, tendo que se retirar de campo após duas lesões.
Nesta Copa, o Brasil tornou-se o detentor definitivo da Taça Jules Rimet. Na primeira partida, a seleção bateu a Tchecoslováquia por 4 x 1, com dois gols de Jairzinho, um de Pelé e um de Rivelino. Em seguida, derrotou a Inglaterra por 1 x 0, com um gol de Jairzinho. Logo veio outra vitória, desta vez contra a Romênia, por 3 x 2, com dois gols de Pelé e um de Jairzinho. Em seguida, o Brasil venceu o Peru por um placar de 4 x 2. Na semi-final contra o Uruguai, o Brasil deu um show, vencendo por 3 x 1.A final foi contra a Itália, e o Brasil a venceu por 4 x 1, com gols de Pelé , Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto. Nesta Copa, Pelé celebrizou até mesmo os gols que não fez, dando, entre outras jogadas geniais, ao goleiro inglês Gordon Banks a fama por ter feito a maior defesa da história dos mundiais, ao salvar uma bola cabeceada por Pelé.
Tudo começou em 1971, quando o Rei estava com o Santos em Kingston, Jamaica, e recebeu uma visita do Senhor Clive Toye, gerente geral de um novo time de Nova York, chamado Cosmos; Phill Woosnam, que acabaria se tornando membro da North American Soccer League (Liga Norte-Americana de Futebol); e Kurt Lamm, secretário-geral da Federação de Futebol dos Estados Unidos. Eles queriam saber se o Pelé aceitaria jogar pelo Cosmos quando deixasse o Santos. Quando o Professor Mazzei traduziu suas intenções, ele disse: ‘Professor, diga a eles que estão malucos! Eu nunca jogarei para outro clube além do Santos!’ Três anos mais tarde, após a última partida pelo Santos, Clive Toye ligou de Nova York e disse para o Pelé que o Cosmos gostaria de conversar a propósito de um possível contrato.Após seis meses de reuniões em todos os cantos do mundo, recados, telegramas, telefonemas, ficou decidido a trnsferência, e aceita a proposta da Warner Communications, proprietária do New York Cosmos, para voltar ao futebol profissional por mais três temporadas.
Pelé era um homem capaz de mover multidões. No final dos anos 60, quando ele e o Santos foram jogar alguns amistosos na Nigéria, a guerra civil que ensangüentava o país parou durante sua visita. Quando foi aos Estados Unidos jogar pelo New York Cosmos, ele, sozinho, trouxe milhares de pessoas aos estádios. Pelé foi e ainda é um ídolo para bilhões de pessoas. Seu nome é pronunciado em todo o mundo com enorme carga de respeito.

Muitas pessoas famosas deram célebres declarações a respeito de Pelé:

"Como se soletra Pelé? D-E-U-S."
The Sunday Times, jornal londrino

"Se Pelé não tivesse nascido um homem, teria nascido uma bola."
Armando Nogueira, jornalista brasileiro

"Marcar mil gols, como Pelé, não é tão difícil. Marcar um gol como Pelé é."
Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro

"Após o quinto gol, eu queria era aplaudi-lo."
Sigge Parling, zagueiro sueco encarregado de marcar Pelé durante a final da Copa do Mundo de 1958

"Eu pensei: ‘ele é feito de carne e osso, como eu.’ Eu me enganei."
Tarciso Burnigch, zagueiro italiano encarregado de marcar Pelé durante a final da Copa do Mundo de 1970.

"Cara, como você é popular!"
Robert Redford, após presenciar Pelé dando dezenas de autógrafos em Nova York, enquanto ninguém lhe pediu um sequer.

"Pelé nunca morrerá."
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.


Em 1993, Pelé entrou para o Hall of Fame do futebol dos Estados Unidos. Após uma viagem a Lima, Peru, onde jogou uma partida, foi feita uma inscrição nas paredes do estádio: "Aqui jogou Pelé". Uma vez, ele chegou a interromper uma guerra na Nigéria. Um armistício de 48 horas foi assinado para que ambos os lados pudessem assistir a Pelé jogar alguns amistosos. Ao se despedir da seleção brasileira em 18 de julho de 1971, duzentas mil pessoas choraram no monumental estádio do Maracanã quando ele deu sua histórica camisa 10 a um menino de dez anos.
Pelé é a única pessoa a haver vencido três Copas do Mundo como jogador (1958, 1962 e 1970), e a ter marcado 1281 (ou 1284) gols em 1363 partidas profissionais, o que provavelmente é o recorde mundial de todos os tempos em futebol. É uma média de 0,93 gols por jogo. Em 1959, ele estabeleceu o recorde de gols em uma temporada do Campeonato Paulista – 126 gols. Em 21 de novembro de 1969, ele marcou seu famoso milésimo gol em uma cobrança de pênalti aos 34 minutos de um jogo contra o Vasco da Gama, dedicando o feito "...às criancinhas pobres do Brasil...", além dos velhos e dos sofredores. Pelé também participou do que veio a ser conhecido como "os anos dourados" da Taça Libertadores da América, de 1960 a 1963, durante os quais o grande Peñarol do Uruguai enfrentou o legendário Santos nas finais. O Peñarol venceu em 1960 e em 1961, enquanto o Santos se sagrou campeão nos dois anos seguintes.
Pelé definiu o papel do jogador de meio-campo criador de jogadas. Ele liderou alguns dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos: Vavá, Didi, Garrincha e outros. Muitos afirmam que Pelé teria sido o melhor em qualquer posição em que houvesse jogado. Pelé chegou mesmo a insistir com o técnico do Santos que lhe permitisse jogar como goleiro. Em 19 de janeiro de 1964, ele substituiu o goleiro do Santos, Gilmar, que havia sido expulso, na semi-final da Copa do Brasil. Por cinco minutos, após haver marcado três gols, Pelé jogou com a camisa um e realizou duas defesas espetaculares, garantindo a vaga santista na final.
Pelé jogou seus últimos 21 minutos pelo Santos Futebol Clube num jogo realizado em 3 de outubro de 1974, que teve início às 09:08 da noite. O Santos venceu a Ponte Preta por 2 x 0, com um gol de Cláudio Adão e um contra de Geraldo. No entanto, a partida terminou para os torcedores quando aos 21 minutos de jogo, Pelé pegou a bola com as mãos, ajoelhou-se no meio do gramado e ergueu os braços, a torcida que estava em Vila Belmiro não pôde negar-se a um momento de surpresa. Mas, foi apenas um momento. Logo, ela compreendeu que Pelé estava determinando o final de sua carreira de maior jogador de futebol de todos os tempos.
Este foi o final da carreira de Pelé com a camisa alvinegra do Santos. Em seguida, o grande Pelé foi levado aos Estados Unidos pelo New York Cosmos, numa tentativa de popularizar o esporte no país. E uma coisa que Pelé sabia fazer perfeitamente era popularizar o que ele bem entendesse, com sua grandeza, com seu talento, com sua imagem universal.


Ficha Técnica:


Título Original: Pelé Eterno
Gênero: Documentário
Duração: 120 min
Lançamento (Brasil): 2004
Distribuição: UIP, Cinearte
Direção: Anibal Massaini Neto
Roteiro: José Roberto Torero
Textos: Armando Nogueira
Co-produção: United International Pictures, Universal Pictures, Cinearte e Anima Produções
Música original: Jorge Benjor
Montagem: Luiz Elias
Direção de Arte: Osmar Muradas
Trilha Sonora: Vicente Sálvia
Restauração: TeleImage / Casablanca
Computação gráfica: Luiz Briquet (Gol da Rua Javari)
Som: Miriam Biderman




Curiosidades sobre o Pelé:

- Eleito o Atleta do Século pelo Comitê Olímpico Internacional, em 1999
- A FIFA elegeu, numa votação feita por renomados ex-atletas e ex-treinadores, como o Jogador de Futebol do Século XX
- Maior artilheiro da história do futebol, com 1284 gols.
- Em 22 anos conquistou 53 títulos(Nenhum outro jogador em todos os tempos, do futebol mundial, acumulou tantas glórias).
- Pelé foi cinco vezes campeão mundial(três pela seleção brasileira (58, 62 e 70) e duas pelo Santos (62 e 63).
- Jogou em 62 países, nos cinco continentes.
- Pentacampeão com o Santos pela Taça Brasil.
- Mais jovem campeão do mundo.Tinha apenas 17 anos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olga




Olga é um filme brasileiro realizado em 2004 pelo diretor Jayme Monjardim, inspirado na biografia escrita por Fernando Morais sobre a alemã, judia e comunista Olga Benário Prestes.

Ficha Técnica:

Nome original: Olga
Origem: Brasil
Realizado em: 2004
Gênero: Drama
Duração: 141 min.
Classificação: 14 anos
Direção: Jayme Monjardim
Elenco: Camila Morgado (Olga Benário), Caco Ciocler (Luís Carlos Prestes), Fernanda Montenegro (Leocádia Prestes), Osmar Prado (Getúlio Vargas), Floriano Peixoto (Filinto Müller).

Sinopse:

Num dia frio, uma jovem adolescente contempla a neve caindo. Sorri. À sua frente, uma fogueira. Crianças brincam de roda num local próximo a ela. Seu pai a observa a uma certa distância. De repente, num gesto impetuoso, ela salta sobre o fogo dizendo "se doer, eu não vou chorar". Assim começa o filme Olga, de Jayme Monjardim.

No início, a história da jovem e entusiástica militante de origem burguesa arrebatada pelo ideal revolucionário, fria, dura, "com nervos de aço", que rompe com a família e se dispõe a morrer pela causa do proletariado parece igual a de muitas outras que seguiram essa trajetória.

Apesar da fotografia impecável e de uma rápida sucessão de episódios que retratam um pouco da história do partido comunista alemão, a coluna Prestes, a intentona comunista e a ditaduraVargas, entremeadas por cenas de romantismo que incluem uma viagem num transatlântico, em muito semelhantes às do Titanic de James Cameron, o princípio do filme deixa no espectador uma sensação de algo próximo do inverossímil.

Somente quando a protagonista, vivida pela atriz Camila Morgado, é detida e deportada para a prisão na Alemanha é que o drama da personagem adquire força e passamos a compreender o ser humano por detrás da militante.

E talvez seja exatamente este o efeito desejado. O filme muda junto com a personalidade de Olga. Enquanto o ideal revolucionário é pintado com cores de um certo racionalismo, não podemos compreendê-lo em sua dimensão mais ampla. Somente uma Olga transformada pela experiência do amor e da maternidade pode dar-nos a exata noção de porque algumas pessoas comuns e ao mesmo tempo especiais como ela, Prestes, Dna. Leocádia e muitas outras movem montanhas por suas convicções.

A figura da mulher, inicialmente sufocada por um estereótipo de uma militante sem tempo para a "felicidade pessoal", irrompe em toda a sua beleza em cenas como aquela em que Olga proclama à imprensa que vai ser mãe de um filho de Prestes.

Atos aparentemente banais como tecer casaquinhos de crochê para o futuro bebê na prisão humanizam a protagonista que, casualmente, em uma missão determinada pelo partido, passou pelo Brasil e marcou para sempre a história do país.

Num momento em que se decretou o fim das ideologias, Olga é um filme, no mínimo, necessário. Convence sobretudo como documento de uma época ainda não completamente desvendada pelos historiadores. Reacende questões como o porquê da perseguição nazista aos judeus e sugere que a deportação de Olga, em lugar de um desejo de Vargas, pode ter sido fruto de uma desavença pessoal entre Prestes (Caco Ciocler) e Filinto Müller (Floriano Peixoto), chefe de polícia do então presidente. O filme é também um convite ao livro homônimo de Fernando Moraes, que sai enriquecido pelos detalhes fictícios ou não que o roteiro de Rita Buzzar acrescenta à história.

Especialmente comoventes são as cenas vividas na prisão em Berlim, em que Olga permanece com a filha, nos primeiros meses de vida da criança, até que, sem que a mãe saiba, a menina seja entregue aos cuidados da avó e da tia. Anita Leocádia, o nome do bebê, é uma dupla homenagem: a Anita Garibaldi - outra figura histórica do Brasil já retratada por Jayme Monjardim na mini-série global A casa das sete mulheres (2003) - e a Dna. Leocádia, mãe de Prestes, revivida na interpretação magistral de Fernanda Montenegro.

Biografia:

Nascida Olga Gutmann Benário em Munique, era filha do advogado Leo Benário e da socialite Eugénie Gutmann Benário, em uma família judia alemã de classe média. Ingressou ainda jovem no movimento comunista, em 1923, com apenas quinze anos, juntando-se a organização juvenil do Partido Comunista Alemão (KPD), a Liga Juvenil Comunista da Alemanha (KJVD). Pouco depois, mudou-se para Berlim com o então namorado Otto Braun, experiente militante comunista,devido a conflitos ideológicos com seu pai, que era membro ativo do Partido Social-Democrata.

Após a queda da monarquia, instaurou-se um regime formalmente republicano na Alemanha, a chamada República de Weimar. O regime, no entanto, jamais foi aceito pela direita, que o considerava um produto da "traição" do Tratado de Versalhes, nem pela extrema-esquerda comunista, que, esmagada politicamente na repressão ao Levante Spartakista de 1919, quando foi assassinada Rosa Luxemburgo, desejava uma aliança política entre uma Alemanha comunista e a União Soviética. Esse conflito entre a direita e esquerda marcou esse período turbulento da história da Alemanha, com lutas armadas entre milícias paramilitarese homicídios políticos.

Neste clima político, em Berlim, Olga ascende dentro do movimento revolucionário comunista depois dos conflitos de rua contra milícias de extrema-direita no bairro de Kreuzberg, próximo a Neukolln.Ela foi presa no mesmo dia que Braun, sendo acusados de alta traição à pátria.Ela logo é solta, mas Braun, não. Junto com seus colegas de militância, planeja então o assalto à prisão de Moabit que libertaria Braun. Logo depois, ambos fogem para a União Soviética, onde Olga, já como quadro valioso, recebe treinamento político-militar na Escola Lenin, trabalhando como instrutora da Seção Juvenil da Internacional Comunista. Separa-se de Braun em 1931. Recebe os codinomes de "Frida Leuschner", "Ana Baum de Revidor", "Olga Sinek", "Maria Bergner Vilar" e "Zarkovich".

A Internacional Comunista, desde o fim dos anos 1920, havia seguido na Alemanha uma política ultra-esquerdista, fundada na recusa a coligar-se com os social-democratasnuma frente única contra o nazismo, que havia contribuído para a chegada de Adolf Hitler ao poder, e a presença de militantes comunistas alemães como Olga no território daUnião Soviéticaconstituía um embaraço para Josef Stalin que começou a pensar em engajá-los em alguma espécie de empreendimento que pudesse de alguma forma compensar o fracasso da política stalinista na Alemanha.

Luís Carlos Prestes, que desde 1931 estava residindo na União Soviética, é, em 1934, é finalmente aceito nos quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), por pressão doPartido Comunista da União Soviética. Sendo eleito membro da comissão executiva da Internacional Comunista (IC), volta ao Brasil, via Nova Iorque, como clandestino, em dezembro do mesmo ano, acompanhado de Olga Benário, também membro da IC, passando-se por marido e mulher. Seu objetivo era liderar uma revolução armada, com o apoio de Moscou.

A política comunista da época - decidida no VI Congresso da Internacional Comunista - favorecia movimentos do tipo frente de Esquerda em países do Terceiro Mundo, tendo por objetivo a realização de um programa de democratização política interna e de defesa da independência nacional contra o imperialismo, e Prestes parecia aos comunistas a figura adequada para liderar esta espécie de movimento no Brasil. Antes de aprovar a insurreição, a Internacional Comunista estava cética do sucesso de uma revolução no Brasil. Mas o Partido Comunista Brasileiro havia exagerado consideravelmente a extensão da sua influência e capacidade de revolucionária e, assim, fornecido à Internacional Comunista a perspectiva - completamente errônea, como se veria - de um levante comunista vitorioso que compensasse, de alguma forma, a recente derrota na Alemanha.

Na época, Moscou criara em Montevidéu, Uruguai, o Secretariado Latino Americano que operava clandestinamente e queria aproximar as organizações comunistas da América Latina de Moscou. Olga e Prestes eram apoiados financeira e logisticamente através desta organização. Após o fracasso da Intentona Comunista e a descoberta destas operações, o Uruguai rompeu relações com a União Soviética, no final de 1935.

Prestes seria acompanhado por um pequeno grupo de quadros, encarregados de auxiliá-lo na preparação da insurreição. Eram eles Inês Tulchniska, Abraham Gurasky "Pierre", o alemão Arthur Ernst Ewert (que seria mais conhecido no Brasil pelo seu codinome de Harry Berger), sua esposa alemã de origem polonesa Elise Saborovsky, o belga Leon Jan Jolles Vallée, Boris Kraevsky, o argentino Rodolfo José Ghioldi, Carmen de Alfaya, a própria Olga Benário, Johann de Graaf, Helena Kruger, Pavel Vladimirovich Stuchevski, Sofia Semionova Stuchskaia, Amleto Locatelli, "Marga", Mendel Mirochevski, Steban Peano, Maria Banejas, norte-americano Victor Allen Baron, Marcos Youbman, "Carmen". Pavel Vladimirovich Stuchevski, que chefiava o aparelho do Komintern no Rio de Janeiro, coordenava as atividades de sete outros brasileiros de menor projeção dentro da Organização.

Prestes e Olga chegaram ao Brasil com documentos falsos em abril de 1935, fingindo serem um casal português mas se mantendo na clandestinidade. O país havia se reconstitucionalizado desde 1934, mas com o Presidente Vargas na situação ambígua de presidente eleito pelo voto indireto da própria Constituinte.

Prestes encontra o movimento recém-constituído denominado Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente política revolucionária comunista de caráter antifascista e anti-imperialista que congregava tenentes, socialistas e comunistas descontentes com o Governo Vargas. O movimento contestava o integralismo de Plínio Salgado, de cunho filofascista. Mesmo clandestino, Prestes é calorosamente aclamado presidente de honra da ANL em sua sessão inaugural no Rio de Janeiro. Prestes procura então aliar o enorme crescimento da ANL, que o prestigia, com a retomada de antigos contatos no meio militar para criar as bases que julgava capazes de deflagrar a tomada do poder no Brasil. Em julho de 1935, divulga um manifesto incendiário, apelando para os sentimentos nacionalistas das classes médias exigindo "todo o poder" à ANL e a derrubada do governo Vargas.

Vargas, no entanto, apoiando-se numa política de defesa da ordem, imediatamente aproveita a oportunidade e declara a ANL ilegal, o que não impede Prestes de continuar a organizar o que acabou por ficar conhecido como a Intentona Comunista.

Os preparativos insurrecionais caminhavam quando, em novembro daquele ano de 1935, um levante armado estourou na cidade de Natal, motivado principalmente por fatores locais. Prestes ordenou, então, que a insurreição fosse estendida ao resto do país.Porém, apenas algumas unidades militares de Recife e Rio de Janeiro se levantaram. O governo brasileiro logo controlou a situação e desencadeou forte repressão sobre os setores oposicionistas. Deve-se lembrar que os planos de Prestes e Olga eram de tomar o poder de Vargas através de uma insurreição armada, e o governo não mediu esforços para suprimi-la.Muitos líderes comunistas são presos, alguns deles amigos de Olga e Prestes, como o casal de alemães Artur e Elise Ewert, conhecida como Sabo. Ambos seriam brutalmente seviciados pela polícia brasileira, sob o comando de Filinto Müller, e Artur perderia definitivamente sua sanidade mental no processo.

Durante alguns meses, Prestes e Olga conseguiram ainda viver na clandestinidade. No início de 1936, tentando encontrar responsáveis pelo fracasso do levante, Prestes manda matar a moça de 18 anos Elza Fernandes, namorada do secretário-geral do PCB. Prestes suspeitava que ela fosse informante da polícia, o que mais tarde se provou um engano.William Waack, que estudou arquivos do regime soviético, alega que Olga não se opôs à decisão, baseando-se em informações de um ex-agente soviético que chefiava as operações clandestinas no Rio de Janeiro. William Waack diz: "Prestes e Olga eram soldados do Partido, e a esses soldados não se admitiam crises de consciência."

Em março de 1936, foram capturados pela polícia. Olga é levada para a Casa de Detenção, posta numa cela junto com mais de dez mulheres, muitas delas conhecidas suas. Aí, descobre estar esperando uma filha de Luís Carlos Prestes. Logo vem a ameaça de deportação para a Alemanha, sob o governo de Hitler. Seria a morte para ela: além de judia, comunista.Começa na Europa um grande movimento pela libertação de Olga e Prestes, encabeçado por D. Leocádia e Lígia Prestes, respectivamente a mãe e a irmã de Luís Carlos Prestes.

O julgamento de Olga foi feito segundo os termos formais da ordem constitucional definida pela constituição federal, atendendo a um pedido de extradição do governo nazista. Nos termos da constituição em vigor, o julgamento era legal. O advogado de defesa de Olga pediu um indulto (Habeas Corpus), argumentando que a extradição era ilegal pois Olga estava grávida e sua extradição significaria colocar o filho de um brasileiro sob o poder de um governo estrangeiro. Havia também o aspecto humanitário da permanência dela no país: não obstante os campos de concentração nazistas, à época, não funcionarem como aparatos de extermínio, era de conhecimento público que eram centros de detenção extrajudicial onde os internos eram tratados com intensa crueldade.

Não obstante tudo isto, o Supremo Tribunal Federal aprovou o pedido de extradição, Vargas não decretou indulto e Olga foi deportada para a Alemanha, juntamente com a amiga Sabo. Getúlio Vargas decretou o estado de sítio após a Intentona como resposta à radicalização político-ideológica no Brasil tanto da direita e da esquerda, polarização que estava acontecendo também fora do país.Apesar de o contexto em parte justificar a decisão, em 1998 o então presidente do Supremo,Celso de Mello, declarou que a extradição fora um erro: "O STF cometeu erros, este foi um deles, porque permitiu a entrega de uma pessoa a um regime totalitário como o nazista, uma mulher que estava grávida."

Após a decisão, Olga foi transportada para a Alemanha de navio, o cargueiro alemão La Coruña, apesar dos protestos do próprio capitão pela violação do Direito Marítimointernacional - afinal, Olga já estava grávida de sete meses. Quando o navio aportou em 18 de outubro de 1936 diretamente na Alemanha, para evitar protestos em outros portos, oficiais da Gestapo já esperavam por ela, para levá-la presa. Não havia nenhuma acusação contra ela, pois o caso do assalto à prisão de Moabit já prescrevera. No entanto, a legislação nazista autorizava a detenção extrajudicial por tempo indefinido ("custódia protetora") e Olga foi levada para Barnimstrasse, a temida prisão de mulheres da Gestapo, onde teve a filha, que denominou de Anita Leocádia, futura historiadora, professora-adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ).Anita ficou em poder da mãe até ao fim do período de amamentação e, depois, foi entregue à avó, D. Leocádia, em consequência das pressões da campanha internacional dirigida, como já dito, por Lígia Prestes e pela própria D. Leocádia, que morreria no exílio no México.

Olga foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg nos primeiros dias de março de 1938, e em 1939 seria transferida para o campo de concentração feminino deRavensbrück. Aqui, as prisioneiras viviam sob escravidão e eram sujeitas a experiências pelo médico Karl Gebhardt. Relatos de sobreviventes contam que, durante o seu tempo em Ravensbrück, Olga organizou atividades de solidariedade e resistência, com aulas de ginástica e história.

Com a Segunda Guerra Mundial e sem mais possibilidades de recursos à opinião pública, Olga seria um alvo óbvio para as políticas de extermínio nazistas: na páscoa de1942, já com 34 anos de idade e quase quatro anos depois de transferida para Lichtenburg, Olga foi enviada para o campo de extermínio de Bernburg, onde morreria.